• marluce lima

Resenha: "Jane Eyre", de Charlotte Brontë


Um romance vitoriano


“Jane Eyre - Uma autobiografia” é o primeiro romance da escritora e poetisa inglesa Charlotte Brontë, publicado em 1847 com o pseudônimo Currer Bell, por considerar mais seguro não ter seu gênero revelado, em especial aos críticos, conforme revelação da própria Charlotte:

“Não gostávamos da ideia de chamar a atenção, por isso escondemos os nossos nomes por detrás dos de Currer, Ellis e Acton Bell. A escolha ambígua foi ditada por uma espécie de escrúpulo criterioso segundo o qual assumimos nomes cristãos, claramente masculinos, já que que não gostamos de nos declarar mulheres, uma vez que naquela altura suspeitávamos que a nossa maneira de escrever e o nosso pensamento não eram aqueles que se podem considerar 'femininos'. Tínhamos a vaga impressão de que as escritoras são por vezes olhadas com preconceito e tínhamos reparado como os críticos por vezes as castigam com a arma da personalidade e as recompensam com lisonjas que, na verdade, não são elogios.”


Charlotte, Emily Jane e Anne eram as irmãs Brontë, famosas escritoras e poetisas do século XIX, filhas de também um escritor e poeta irlandês, Patrick Brontë.


A história poderia ser considerada apenas mais um romance clichê, em que a mocinha pobre se apaixona pelo patrão rico e influente, e submete esse amor ao segredo e ao contentamento, porém a obra não se trata apenas de um amor impossível. Entre os temas destacados na trama está a religião, o Classismo, a beleza, sexualidade e o papel que a mulheres representavam na época vitoriana. Jane descreve os valores e costumes da sociedade, expondo os preconceitos, a rigidez e a severidade em especial às mulheres e também aos que não pertenciam a um significante status social.

O livro é uma auto-biografia contada pela própria personagem Jane Eyre, a qual resgata e nos conta as memórias significativas e marcantes na vida dela. O início retrata a infância em Gateshead Hall, onde Jane vivia sob a tutela da tia Mrs. Reed, qual não a admitia como membro da família.

Jane era uma menina de 10 anos, órfã e deixada para a esposa de seu tio Mr. Reed, e possuía uma personalidade imaginativa e aos olhos da tia e dos moradores de Gateshead era uma “selvagem”. Jane nutria essa angústia de se sentir menosprezada e isolada deles e do mundo.

“Nunca gostara de longas caminhadas, especialmente em tardes frias. O mais terrível para mim era a volta para a casa no frio entardecer, com os dedos e artelhos congelados, o coração entristecidos pelas repreensões de Bessie, a ama, e humilhada pela consciência de minha inferioridade física em relação à Eliza, John e Georgiana Reed.”

O caráter voluntarioso e passional de Jane a coloca em situações de conflitos com a tia e primos, e acabava por sofrer todos e quaisquer castigos e humilhações por parte destes, sendo ainda considerada a criatura mais inferior na escala dos empregados da casa. Até que uma discussão intensa com o primo John a levou para uma horrível punição no quarto vermelho, quarto esse onde seu tio havia falecido, causando em Jane um terrível surto. Em resultado disso, a tia que não suportaria mais lidar com a selvageria da sobrinha renegada, concluiu que a melhor solução seria enviá-la para a escola, e assim uma nova etapa na vida de Jane se inicia.

Ela vai para a Instituição Lowood, onde passa 8 anos de sua vida se formando e amadurecendo. Jane relata que seu primeiro trimestre no orfanato foram longos dias de luta e dificuldade de se habituar a novas regras e tarefas. As condições eram precárias, as meninas que lá viviam eram submetidas a condições miseráveis.


“A senhora está ciente que minha ideia de educar essas meninas não é acostumá-las ao luxo e à indulgência, mas torná-las fortes, pacientes e capazes de renúncia”, o pastor e diretor da instituição Mr. Brocklehurst, um personagem enigmático e severo que faz questão de pregar que aquelas meninas que lá viviam deveriam se submeter às suas doutrinas e ensinamentos morais, tendo como principal objetivo torná-las fortes sob condições de privações.

Provável que esses ensinamentos puderam proporcionar a Jane uma característica mais resistente, dando a ela mais preparo para lidar com as adversidades da vida, com suas emoções naturais e também com a personalidade mais agressiva tanto dela mesma quanto à de outros indivíduos.

A instituição também passou por transformações, ela se destacou dentro da organização se demonstrando respeitável e prestativa, passou a dar aulas às meninas mais novas juntamente de Miss Temple, mulher a qual ela admirava desde o início. Com a saída de Miss Temple, Jane sente um vazio e decide que precisa ir em busca de novos ares e então envia sua carta de interesse pela vaga de governanta para Mrs. Fairfax que aprova seu currículo robusto.

Jane então se despede de mais uma etapa e se muda para Thornfield Hall, casa onde o amor se torna o principal protagonista.

O papel de governanta lhe dava a segurança de se sentir em casa e à vontade entre os criados e com uma certa liberdade de ser quem era. Ela se afeiçoa à Mrs. Fairfax, a principal e antiga governanta da casa e também à Adele, a pequena menina que ali vive sob a tutela de Mr. Rochester.

O amor que nasce dentro dela é um amor puro e genuíno. Mesmo entendendo que a possibilidade desse amor acontecer é quase nula ela permanece nutrindo esse sentimento com a certeza de que nenhuma mulher será capaz de sentir amor tão sincero quanto o dela é por Mr. Rochester.

“O leitor sabe que trabalhei duro para extirpar da minha alma os germes desse amor que ali se haviam instalado.E agora, pela primeira vez lancei os olhos sobre ele, esses sentimentos voltaram, mais firmes e fortes! Ele ganhou o meu amor sem sequer me olhar.”

O mundo que ela observa ao redor, a corte, a burguesia e todas as características dessa sociedade aos olhos dela é vazia e desprovida de sinceros sentimentos. Jóias e vestidos caros não representam nada a ela a não ser uma forma de tentar preencher nesses seres vazios a aparência enquanto escancaram a falta de habilidade humana.


“Eu os vi sorrir e dar risadas... e isso não era nada. A luz das velas tinha mais alma do que os seus sorrisos”.

É possível vislumbrar a transformação que Jane passou durante a história, e de forma sutil e fluida, vejo que a essência da personagem não perdeu espaço mas ao contrário, tomou forças. É possível enxergar na Jane de 18 anos, a mesma menina sonhadora, imaginativa e de sinceras reflexões dos 10 anos de idade. As doutrinas, apesar de severas foram ferramentas essenciais para fortalecer o caráter que ela já apresentava ter desde cedo, alguém que tenta enxergar o mundo além do alcance dos olhos, alguém que passa a ouvir o que os outros têm a dizer mas que pondera e aceita o que lhe faz sentido e descarta o que a afasta de suas crenças. Vejo que foi importante até certo ponto que ela fosse um ser invisível ao meio de pessoas tão expostas, para que ela potencializasse o poder de sagacidade e apreciação dos hábitos e costumes dos demais, assim questionando seu próprio comportamento diante a tudo e assim definindo os seus caminhos.

Jane possui uma facilidade de seguir sua intuição e dizer o que pensa de forma a não ferir ninguém e nem a ela mesma; passa por uma luta constante em manter o amor vivo dentro de si mas não extravasa-lo ao mundo enquanto sua posição social não permite tal ato.


Eu esperava um final feliz, digno de um romance, de fato desejava um final feliz para essa personagem que me cativou - talvez pelo motivo de pessoas como essas, verdadeiras e íntegras, serem escassas nos tempos atuais, porém confesso que me deixei surpreender. Os entrelaces, as reviravoltas e a forma com que a história foi tomando rumo foram me ensinando que qualquer situação por mais que seja semelhante, há sempre uma outra forma de se enxergar e se descrever.

“Ele não é para elas o que é para mim, não é da sua espécie, e sim da minha. Estou convencida disso, sinto-me ligada a ele, entendo a linguagem do seu rosto e dos seus gestos. Embora a situação social e a riqueza nos afastem profundamente, tenho alguma coisa no coração e na mente, no sangue e nos nervos, que me liga espiritualmente a ele.”

Jane critica algumas características da religião de modo sutil através dos personagens Mr. Brocklehurst e também o missionário Mr. John. No livro ela também destaca alguns pontos de aspecto que hoje são considerados feministas, demonstrando uma inquietação de buscar sempre mais e um grande interesse em ser um “pássaro livre” ao invés de se submeter a atividades estritamente femininas, que para a época eram os deveres e afazeres domésticos e matrimoniais. Fato esse que acaba se contradizendo com o final da história, em que Jane se casa e passa a ser os olhos e o braço direito de seu marido, vivendo exclusivamente para o papel de esposa.

Talvez possa ter sido um aspecto que se reflete oposto à liberdade que ela acreditava inicialmente, mas Jane teve a voz e coração firmes, ela foi quem gostaria de ser e teve o poder de decidir seu papel, atos esses que já são consideravelmente feministas aos olhos do século XXI, onde o romance é objeto obsoleto e onde nem sempre o amor vence.


“Eu não sou um pássaro, e nenhuma rede me prende. Sou um ser humano livre com vontades independentes” , Jane Eyre


BIOGRAFIAS:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Charlotte_Bront%C3%AB

https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_vitoriana

https://pt.wikipedia.org/wiki/Classe_social



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