• marluce lima

"Quincas Borba", por Machado de Assis

Updated: Jul 2, 2019

resenha

imagem retirada da internet


“Que abismo que há entre o espírito e o coração!”


“Quincas Borba” é um romance o qual marca um novo estilo literário na obra de Machado de Assis, juntamente com mais dois de seus livros (“Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”), considerados pela crítica moderna como a Trilogia Realista.

“Quincas Borba” foi publicado em livro no ano de 1892, 10 anos depois, Machado de Assis resgata em terceira pessoa, o personagem de Barbacena, Quincas Borba, que antes era um mendigo e inventor de uma filosofia chamada “Humanitismo” reaparece neste romance com uma súbita herança. Casa-se com a irmã de Rubião, porém esta morre, deixando-o viúvo e sobrando-lhe apenas o seu fiel cachorro e o amigo Rubião.

Rubião, um “singelo como um mineiro, mas desconfiado como um paulista” era um professor de Minas Gerais, torna-se amigo, discípulo de Quincas Borba e seu enfermeiro quando este adoece, e então é nomeado herdeiro das riquezas de Quincas Borba com a condição de que fosse o tutor do cão. Rubião então ficou com a tutela do cachorro, o qual levava o mesmo nome que o dono, fato esse que o fazia desconfiar (e também o leitor) que o falecido estivesse ainda vivo pelos olhos do cão como numa espécie de metempsicose.

Rubião decide fazer uma viagem e conhece o casal Cristiano de Almeida Palha e Sofia, mulher esta pela qual Rubião se apaixona. Rubião definitivamente muda-se para o Rio de Janeiro, a partir disso uma amizade se estreita entre os três, torna-se sócio de Palha, este que logo ouve o relato da esposa de que Rubião houvera se declarado e então passa a usufruir do caso para conseguir favores de Rubião, que ingenuamente foi perdendo o dinheiro da herança aos poucos, assim como o próprio juízo.


“Oh! Boa lágrima inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes não ser explicável a outros, e assim vai o mundo. Que importa que os olhos não fossem costumados ao choro, nem que a noite parecesse exaltar sentimentos mui diversos da melancolia?”


O caso Rubião e Sofia é poetizado pelo autor, de forma que em determinadas situações se desconfia que os fatos se deram, e em outros Sofia demonstra se sentir enojada sobre aquela relação. A troca de olhares e pensamentos, talvez fosse uma demonstração secreta de que aquela relação pudesse ter acontecido; que as declarações de Rubião fossem além de apenas bálsamos aos seus ouvidos, mas que aquelas palavras todas mexessem em seu âmago, que criassem nela uma complexidade entre atração e repugnação. Sofia demonstra a vaidade, ao desejar ser desejada, por vezes um desejo que não era nutrido pelo próprio marido, qual trabalhava incansavelmente por mais capital. O matuto que nunca soube lidar com as mulheres, confunde os olhares de Sofia como respostas, como possibilidade e esperança de que esse amor fosse real (se é que não foi).


"ao vencedor, as batatas"


Como se a história se repetisse, ou se fosse ele mesmo a experiência viva da filosofia do falecido amigo, Rubião vai ao delírio. Vê-se Napoleão III e Sofia a sua amante. Burburinho esse que se espalha pela sociedade e marginalizando e ridicularizando Rubião aos poucos.

A loucura das paixões, ambições, interesses políticos, os instintos de sobrevivência, dinheiro e poder, a vida de fidalgo que ele levava entre a vida dos que souberam lidar melhor com “as batatas”, Rubião foi se esvaziando aos poucos. A ilusão mistura-se com a realidade, pois a realidade então passa a ser melancolia e se esvai da razão.


“A razão não pode ser outra senão que a melancolia da paisagem está em nós mesmos, enquanto que atribuí-la ao cão é deixá-la fora de nós”.


Machado retrata a realidade de uma época do Brasil, trazendo temas onde a psique humana vive em um desequilíbrio entre espírito e as emoções, buscas que ultrapassam os tempos, não sendo à toa que Machado ainda é o escritor mais bem sucedido na literatura brasileira até os dias de hoje e ainda tão enigmático.

É complexo querer avaliar este romance, como as demais obras de Machado em poucas linhas. Nas mais simples linhas que ele escreve há uma imensidão de sentidos e pensares. Por ele ter sido parte da política, a sua observação à este cenário me parece sempre muito sóbrio, e com neutralidade ele consegue expôr realisticamente todos os lados, arrastando para os dias atuais a idéia de que esse sistema político e humano é uma condição definitiva.

No tocante à política do romance em questão, sugiro a leitura da análise escrita por Laila Correia e Silva, onde ela também explana mais sobre a filosofia “Humanitismo”, clicando aqui.

Para entender Machado é preciso ler toda a obra de Machado, e genialmente ele faz essa conexão entre uma obra e outra, incitando que os leitores as leiam e as reflitam.

Para entender a condição humana, basta encarar a realidade que expõe a filosofia morta de Quincas Borba.


“Não há vinho que embriague como a verdade”




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