• marluce lima

quatro de junho — píer

fragmento do livro: "sou mar"



sou mar...

não sou azul, nem verde

acho que sou um mar laranja

assim como ele, sou infinita

cabem-me tantas gotas de água

quanto partículas de ondas.


sou ora brava, ora serena

tranquila no mais fundo e

abismo de dúvidas rasas


me bagunço quando encontro as pedras

me agito, me disperso

minha água esquenta

e esfria quando um corpo permanece.


sou o mar do horizonte que

não se sabe quanto ainda há

ou se ali ele se encontra com o céu

e funde-se

e finda-se

e se vai

ficar

ou voltar.


não sei se há chuva

se há de vir

e se vier

se fui eu a pesar

nossos próprios cílios

dos suores abandonados

pelo descaso do tempo.


há muitas vidas em minhas profundezas

tenho espécies perigosas no meu oceano

são muito mais do que eu mesma possa desconhecer

tenho medo de mim mesma

tenho medo de me afogar na superfície

medo de não voltar do fundo.


será que o mar também busca

o equilíbrio entre a quebra de uma onda à outra?

será que ela existe para nós, mares?


e se me derrubam petróleo e padeço na melancolia

de um mar cristalino a tocar as margens

que escondem ostras no escuro

e suas pérolas secretas.

sou como mar sem direção

mas que sabe que existe o caminho que pinta o mapa de azul.


sou como a cantoria dele que

acalma.

sou como a espuma branca que se forma.

sou mar passageiro

intermitentes gotas que encontram-se e desencontram-se pelo tempo.


será a mesma gota de água a tocar a beira?

quanto tempo levaria pra atingir todas as costas?

será que elas já beijaram os pés de tantas montanhas?


sou como abrigo às algas

fonte de energia da deusa

alimento pra alguns seres divinos

descanso pras asas

banho pro espírito

santuário pro mundo.


sou simples por ser mar

complexa por ser oceano

suscetível ao vento

caso-me e canso do tempo.

sou como mar, pro sol: espelho.


sou como maré que sobe

e derruba o castelo de areia da criança da praia

e encharca a canga da moça a bronzear-se.


sou como onda que engana

e derruba pelas pernas

e invade minhas fossas nasais.


sou como falso grão de areia que afunda quando sente solas.

sou como pingo de chuva

que se acomoda no mar e fica

até dissolver

até que se vai.


sou como gaivota que descansa

no mar e volta pra casa

sou como caranguejo que belisca uma pele flutuando na areia maciça

e retorna

apaixonado

sem norte.


sou como poças d’água resguardadas no meio de conchas

que secam

que viram pó n'água

que viram mar

quando encaixo aos ouvidos.

que vira eu,

quando não estou escrevendo.


sou mar que descama rochedos

lapida pedras

traz belas conchas pra beirada.


sou ora salgada, ora azeda

sou mar que cura feridas

abertas em carne viva

e que arde

e arde

no mar.


sou mar que não pertence a ninguém

que não pede passaporte na entrada de outras ilhas.

sou mar que salga lábios

e amortece a maldade antes de ser cometida.


sou mar que purifica a alma

todas as vezes que me sujo de pó cinza

sou mar de brônquios em maior potência ao som da maresia.


sou mar curioso pelo

lado oposto das rochas

sou labirinto pros piratas

sou braço pra outros barcos

alcançarem outras penínsulas.


sou mar impenetrável quando gelada

e mar que aquece quando é cápsula.


sou mar de garrafas atiradas

e a poesia que vem dentro delas,

intacta.


sou mar que mata a sede de raio solar diurno

no crepúsculo da revolta

a noite se cura, no descanso da lua.



#poesia #editoraurutau #soumar #poeta #poesiabrasileira

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