• marluce lima

quatro anos de Irlanda

São quatro anos de Irlanda. Sou uma criança de quatro anos aprendendo a ler, escrever e interpretar uma língua estrangeira.

Os primeiros anos foram repletos de crises existenciais até que elas diminuíram quando eu descobri a razão de ter saído de casa e de querer permanecer em outro país. Teve choro, teve riso, teve chão, literalmente.


São 11 horas e 30 minutos de uma terça-feira de fevereiro, estou aquecida dentro de casa, olho para fora e a janela parece uma snow globe, com casinhas igualmente construídas, com jardins expostos e a neve caindo ao redor delas. A beleza da neve acaba quando queima a pele de frio. A vida continua e eu sei, o tempo muda.

Pego a bicicleta e vou para a academia, 30 euros por mês, sauna, pilates e piscina. Dou duas voltas completas, quatro respiradas e um orgulho de meu fôlego.

Nada disso faz sentido pra você que lê, e que sempre soube nadar.

Eu não teria sido capaz de atravessar a piscina duas vezes direto, aquela que foi de salto alto pro aeroporto de Guarulhos quatro anos atrás e carregando uma necessáire pesada.

Quatro anos aprendendo a nadar em marés confusas, em marés que não banham os litorais que me banhavam antes.

Eu me mudei e mudei tanto, que as vezes as confusões vêm para serem analisadas... é a busca do equilibrio entre minhas raízes e as novas essências que ouso criar. As vezes é assustador, e assusta ainda mais pelo fato de que não vou ao Brasil desde que saí de lá, e não sei mais o que e o quanto deixei na espera ou se há algo ainda que espera.

Mudar é um caminho sem retorno. A volta é permitida, para olhar para o passado e não repetir os mesmos erros, olhar para trás e entender que está tudo intacto e daqui para a frente é outro lado.

E foi hoje que percebi, nadando de um lado para o outro, que eu não sabia nadar porque eu tinha pressa de alcançar o outro lado. Quando eu abria os olhos embaixo e via a imensidão de tempo incalculável o meu fôlego sumia, engolia água, morria no meio.

Não foi de um dia pro outro, foi dias observando os peixes e demais espécies que dividiam a água da piscina comigo, dias nadando sem se preocupar com o barulho externo, com meu maiô de dois euros do brechó, apenas a olhar para o fundo que demarcava a linha de fundo, a qual eu deveria seguir para permanecer na retidão, para não atropelar ninguém no caminho, porque eu já sabia onde queria chegar, eu só precisava me proibir de contar o tempo, e continuar seguindo.


#intercambio #morarfora #brasileirosnairlanda #brasileirosemdublin #viverfora #intercambistas #mudar #transformar #mudanca #intercambioemdublin

0 views
  • Branca Ícone do Flickr
  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Ícone do Instagram Branco
  • Ícone do Youtube Branco

made with love & poetry