• marluce lima

perda

Updated: Feb 13

|de uma página do diário



Ontem eu precisava de discrição, do meu espaço, da minha solidão e não respeitei isso, respeitei a palavra que dei a você. Fui intrusa. Não sei na verdade, qual das minhas versões fui eu. Acho que fui ninguém. Teria sido melhor ter ficado sozinha, e você me deixou no caminho. Quem dera, eu lhe ignorei para continuar imersa em meus infinitos pensamentos, na minha infinita loucura, no meu próprio perigo.


Porque eu tenho tanto medo a pensar que a morte resolveria tudo?


Eu perderia o sol de hoje, eu perderia mais um dia de rotina, eu perderia o crescimento do pé de abacate e do amadurecimento dos tomates. Eu perderia a leitura, perderia livros, eu perderia novos versos, perderia o costume, perderia Clarice, perderia esse vestido. Eu perderia a minha coleção de pinhas, eu perderia meus amigos. Eu perderia chances, eu perderia meus sobrinhos. Eu perderia oportunidades de ser mãe – de abacates e livros. Eu perderia o juízo, eu perderia a razão

– pela última vez.


Eu perderia a cabeça, perderia lágrimas, eu perderia risadas, perderia a areia, perderia a noção. Perderia o vôo dos pássaros, perderia o ritmo, perderia a dança, perderia a paz. Perderia o café da manhã com cappuccino, a confiança, o vento, os planos, os sonhos, e até mesmo os pesadelos sem sentido.

Perderia suas pernas nas minhas, perderia o romantismo, perderia o drama, o medo, eu perderia a feira de domingo. Eu perderia a graça, perderia o sono, perderia seu cabelo, perderia as papilas, as pupilas, as pálpebras.

Eu perderia o jantar, o arroz e feijão, as fibras, os cálcios, nossas manhãs. Eu perderia o jogo, o gosto, a temperatura, as álgebras. Eu perderia o brilho, a sensatez, perderia as rugas, as chuvas, vocês. Eu perderia os sentidos, o chá de hortelã, o chocolate, o vinho, a embriaguez. Perderia o banho, a dor, a visita, a vista, o cansaço, o regador, suas roupas no cesto, nossas conversas, suas meias do avesso. Eu perderia o toque, o soluço, a solução. Perderia as expectativas, as surpresas, a aurora-boreal. Perderia a viagem, os documentos, o contato, o tato, o seu aniversário e o meu. Eu perderia a paciência, a ciência, a consciência, a constância, a arrogância, a criança, a esperança, a vida, a poesia, perderia você.

Digo então, vai com alma, mar de ondas perturbadas. Continua navegando.

É tudo tão breve.




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