• marluce lima

"O mesmo mar", de Amós Oz

Updated: Sep 21, 2019

resenha


Olho para a capa do livro, viro, olho para a contracapa. Tento entender a ilustração, as letras, a estrutura, e tudo parece embaçado diante de meus olhos, como se eu voltasse de um mergulho do fundo do mar, de olhos bem abertos. O sal arde em minha pele. Meus dedos paralisam. Tenho em minhas mãos, a edição do ano de 2001 publicado pela Companhia das Letras. Tradução do hebraico de Milton Lando e ilustração do artista nipo-brasileiro Takashi Fukushima. O mar que ele desenha na capa é o mesmo mar que se derrama pelo interior do livro, um mar abstrato, um mar de sinais, um mar que te faz abrir o livro com a capacidade de desenhar paisagens no suor da janela.

Eu sei que quero escrever uma resenha sobre este livro, mas não consigo seguir uma ordem cronológica, um padrão ou nem mesmo uma receita. Talvez esse texto não venha a ser uma resenha, mas sim a busca de compreender essa cacofonia do mundo. Essa mistura de consciências e enigmas.

Confesso, já faz algumas semanas que terminei esse livro, meu estômago ainda revira. Pensei que pudesse ser minha gastrite nervosa ou talvez uma ansiedade que me tomou por inteira. “Quero escrever como ele” - desabafei alto dentro do meu quarto. Os mortos revivem.

Desculpe se você espera que eu diga sobre o que diz esse livro, apenas ouço a maré de palavras que me atravessaram como onda. Primeiro, vem. Se apresenta sem amarras. Sem desculpas. Com poesia. Sem piedade. Já há muitos abandonos.

Se abrir a janela verá o mar a se insinuar no horizonte.


“Antes do desculpe, este lugar está livre,

antes da cor dos teus olhos, antes do que você quer beber,

antes do eu sou o Rico, e eu, Dita, antes do roçar

da mão no ombro,

aquilo nos atravessou

como a fresta de uma porta abrindo-se em meio ao sono”


No livro, Amós cria diálogo consigo mesmo, com seus semelhantes e com nós, leitores. Confundimos o autor conosco, ele se confunde com ele mesmo. Confundimos

os mundos dos quais ele relata com o nosso próprio mundo.

Sua escrita é reveladora e sensual, ele nos faz sentirmos íntimos de vidas que jamais conheceríamos.

“A cadeia de montanhas

parece

uma mulher

adormecida, poderosa, serena, deitada de lado depois de uma

noite de amor.”

Rico se vai para as montanhas do Tibet. Volta em forma de cartão-postal, telefonema, ou volta apenas no subconsciente de quem ficou. De repente nos vemos fazendo amor com ele, com o pai dele, com Dita e também Maria, a prostituta e cantora de fado. Entramos na vertigem desse turbilhão de carícias, fazemos amor também com Nádia, a mãe falecida, que parece ter morrido com as finas toalhas de mesa bordadas sobre o colo; e sobre o colo o filho ainda mamando e talvez

mais outros personagens sugando de seus mamilos o alimento que os sustente para a vida inteira.

“Enquanto isso, a brisa do mar vai e vem”, “Só o mar ainda a espera” e “Da janela da cozinha o mar já fala em outono”. Toma mais um copo de chá. A morte de Nádia ainda incompreendida. Os solitários contam os dias. “Até que venha o jornal, eu

também vou

sentar e escrever”.

De repente parece que estamos todos nus, no mesmo quarto, á vontade, esperando visitas tão pouco inesperadas, de cidades como Tel-Aviv, Butão, Bat Yam, das montanhas, das estrelas e vindas da Lua. Venha. Te servirão chá com pãezinhos, azeitonas e queijo de ovelha. Deita a cabeça no colo do sofá. Senta-se só. Não. Sinta-se. Leia no silêncio, você precisa estar atento às palavras que navegam pelo mesmo mar. e

você sabe, o mar é indominável como o Homem das Neves.



|Leitura|:



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