• marluce lima

droga de poesia



São três horas da manhã. Retiro a bolsa de água quente já quase fria, que pousei sobre o meu estômago. Inutilmente. Cinco drogas que tomei. Nada surte efeito. Uma dor me dilacera os músculos das costas, aliás, não sei se são músculos, ou se são minhas costelas, ou alguma parede interna. Algo me dói no avesso. Dói muito algo dentro de mim e saber que eu, apenas eu sou dona dessa dor.


Beber vinho demais, beber café demais, comer demais, amar demais, socializar demais, viver demais. Tudo em demasia tem suas consequências. Não sou forte o suficiente para suportar a ânsia de ingerir a vida de modo exagerado.


O que adianta se empanturrar de poesia? Acordo de ressaca, como se nada tivesse me saciado a vida.


Um texto do poeta me veio à mente, fui reler esse trecho para quem sabe, ser capaz de interpretar a dor e esse deboche que ele fala, sobre essa produção exarcebada de ácido estomacal. E quem sabe, sobre essa ansiedade de se tornar alguém apenas por estar sentindo algo.


"agradecer ainda ao meu estômago que padece de uma

azia constante – há um sabor de deboche na produção exacerbada de ácido estomacal. a enxaqueca que hoje foi dissipada com apenas mil miligramas

de paracetamol. às oito horas de vida & liberdade que vendo em troca de moradia e baratos luxos."*


A poesia me provoca ressaca.





Agosto de dois mil e dezenove.


*Trecho do texto do Rafael Mendes, leia na íntegra no link:

https://avessodapalavra.wordpress.com/2019/08/09/95/


0 views
  • Branca Ícone do Flickr
  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Ícone do Instagram Branco
  • Ícone do Youtube Branco

made with love & poetry