• marluce lima

Assobio

Updated: 4 days ago

...“O assobio funciona muitas vezes como um mantra que vamos dizendo em solidão. O poder do som que sai de um corpo tem muita força. E há muitas maneiras de deitar para fora: gritando, sussurrando, cantando ou assobiando. Se pensarmos bem, quem assobia nunca caminha verdadeiramente sozinho, vai na companhia de uma canção, de um som forte ou manso, vai de acordo com uma repetição melódica muitas vezes compassada com a nossa alegria ou a nossa tristeza.”

"Assobio" Ping Pong, programa de rádio por Matilde Campilho e Tomás Cunha Ferreira.




Sou a terceira filha de quatro mulheres. Dentre elas, acreditei que eu era a ovelha negra.

Há sempre uma ovelha negra na família. Que isso talvez tivesse sido uma forma de rejeição; afinal, é visto com maus olhos alguém que não se enquadra em padrões aceitos por determinada família ou sociedade; ou que fosse uma vantagem, pois a ovelha que nascia de cor preta era aquela que não acompanhava os outros animais, se desassociava, requeria mais cuidados, portanto, uma ovelha peculiar.


Mas há também pássaros peculiares, e é sempre complicado querer identificar um pássaro de longe. Pássaros não assoviam. Assoviar é coisa de gente. Os pássaros se entendem muito bem com as cantorias e destinos. A gente, nunca sabe onde ir. Talvez seja por isso que os pássaros se postam a migrar. E se perceber, eles respondem aos assovios.


Distraio-me facilmente pelo assovio do vento, mas nunca me peguei cantarolando no caminho. Nunca soube assoviar. Me pego sempre na dúvida se assovio se escreve com “v” de voz ou “b” de boca, ou se tanto faz. Talvez por isso eu carregue ainda hoje esse jeito de me encontrar perdida, variante de um hemisfério a outro. Jogo no mapa em busca de encontrar as guerras que ocorrem no Hemisfério Sul, se elas existiram, ou se ainda existem. (Ainda há algumas guerras lá em casa. E eu falando de assobios!)


O que eu estava a dizer, é que quando ainda menina, e ainda hoje, quando escuto o assobio peculiar de meu pai, sinto-me perto de casa. Como se esse assobio me transportasse a um tempo de aconchego, de pertencimento, ao ponto de encontro.

Dizia minha mãe não gostar de assobios, que também não sabe assobiar, mas se escutá-la até o fim de suas palavras, há os que conseguem identificar um assobio. O jeito que ela fala, faz-me sentir em casa.


Mas ovelha negra, vocês sabem, segue seu próprio caminho. Dá um assobio, me encontra. Me encontro. Assovia. E me dói o peito de pensar, mesmo pássaro pequeno e migrador que sou, o dia que esses assovios ecoarem no nada, e eu estar perdida, como chamarei vocês de volta, se eu só sei assoviar baixinho?






Fotografia em Lisboa, 2019.

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