• marluce lima

arte de morrer

Updated: May 12

|texto e narração para o documentário:


"O artista e a morte", é um curta sobre a profissão menos conhecida, a tanatopraxia, dirigido por Débora Terra e produzido por Maurício Esquiavói.

Profissão desconhecida talvez, pelo fato de que falar da morte é sempre falar de algo desconhecido, algo que nos repele dela mesma, constantemente.

Ainda que possa haver a certeza sobre a aproximação dela, ainda que a aceitemos como fado...a morte será sempre uma surpresa.


O documentário cria uma visão humanista e bela sobre a morte, fala sobre o que se faz com o corpo e como o considera após a morte: como algo que ainda é vivo.


- Tudo se recria, até mesmo um corpo.


*Contém imagens que podem achar pertubadoras.



arte de morrer


Se existe alguma relação da arte com a morte talvez seja a inevitabilidade de ambas.

Já dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade” ou ainda que “a arte existe para que a realidade não nos destrua”.


Há diversos retratos sobre a morte nas artes e na literatura, seja pela busca da aceitação de si como ser pequeno e efêmero, seja pela simples curiosidade, o artista está constantemente a se colocar no papel de observador, sempre a morrer a cada palavra recitada ou a cada traço pintado sob uma tela.


É como se o artista e o poeta possuíssem a capacidade de auto-digestão, nutrindo-se de si com as regulares viagens para dentro deles mesmos. Nessas viagens, é possível que se encontrem outros organismos à sentirem o mesmo.




“Tão cedo passa tudo, quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão pouco!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala! O mais é nada”

Fernando Pessoa


Ainda que haja a certeza em relação à morte, o poeta questiona-se. “Qual será o cheiro da morte?”

Tem medo: “E se a morte me pegar desprevenida e eu não tiver dito tudo o que me ronda a esfera?”

Cria a própria crença mediante a falta de certezas. “Será apenas um desencontro?”

Divaga sobre deuses desconhecidos e a incompreensível vida.

Por muitas vezes prefere a morte à realidade. Prefere luzes pelas costas aos olhos, pois o sol o lembraria de que ainda há uma vida à espera.


É possível que um corpo morra estando vivo. E não se sabe quanto tempo isso levaria e o que será feito desta morte.


“Se depois de eu morrer quiserem escrever minha biografia,

Não há nada mais simples. Tenho só duas datas:

A de minha nascença e a de minha morte. Entre uma e outra

Todos os dias são meus”

Fernando Pessoa



No fim das contas, a morte é tão insignificante quanto receber flores…



“Quando vier a primavera


Quando vier a primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria

E a primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.”

Alberto Caeiro in Poemas inconjuntos


E tão insignificante quanto ao que nos tornamos com o tempo.

Sejam poetas, pintores, sejam os que jazem a viver, seremos somente um corpo e nada além da irrelevância disto.




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